Spcine lança plano de políticas afirmativas para o audiovisual

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A Spcine lança nesta quarta (25/9) um plano de políticas afirmativas que estabelece metas para ampliar a participação de mulheres e pessoas negras no setor audiovisual. O plano contempla também ações voltadas à produção de criadores indígenas, transexuais/transgêneros e pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida, além de iniciativas com recorte LGBTQ+.

“O audiovisual brasileiro tem que ser um reflexo do Brasil e de sua diversidade de gênero, raças, identidades e pontos de vista. O plano é uma maneira de acelerarmos a chegada a um equilíbrio no quadro atual, ainda muito desigual para mulheres e pessoas negras. Como formuladora de políticas públicas, a Spcine está atenta à questão e desenvolvendo soluções”, defende Laís Bodanzky, presidente da Spcine. 

Todos os editais da empresa com lançamento previsto para 2019 e 2020 incorporam mecanismos de inclusão. O primeiro a ser lançado é o edital de produção para filmes de baixo orçamento, com inscrições abertas. A linha vai investir R$ 3 milhões em projetos de longa-metragem de ficção e documentário.  

Projetos com mulheres nos cargos de direção, direção de fotografia e coordenação de pós-produção têm ponto extra no processo seletivo deste edital. A pontuação é cumulativa: cresce de acordo com o número de mulheres em cargos de liderança. A linha de fomento também estabelece ponto adicional para empresa com quadro societário composto por pelo menos uma pessoa negra. 

“O plano compreende a necessidade de um setor diverso como potência criativa e econômica. E pensa em ações de acordo com os gargalos para cada um dos grupos afetados”, explica Malu Andrade, diretora de Desenvolvimento e Políticas Audiovisuais da Spcine. 

As metas são monitoradas por meio de dois indicadores: número de projetos inscritos e número de projetos contemplados. O plano prevê que, caso as metas não sejam atingidas, a Spcine deve desenvolver ações de formação com foco no gargalo de mercado identificado naquela linha de fomento.

Contexto 

Estudos recentes destacam a falta de representatividade no audiovisual brasileiro. Levantamento da Agência Nacional de Cinema (ANCINE) com base nos 142 filmes brasileiros lançados comercialmente em 2016, mostra que homens brancos dirigiram 75,4% dos longas-metragens. Mulheres brancas foram responsáveis por 19,7% dos filmes. Apenas 2,1% foram assinados por homens negros e nenhum filme foi dirigido ou roteirizado por uma mulher negra.

O estudo indicou predominância de homens brancos não apenas na direção em todas as principais funções de liderança no cinema. Eles assinaram 68% dos roteiros de filmes de ficção, 63,6% dos documentários, e 100% das animações brasileiras.  O quadro se repete nas funções de direção de fotografia (85%) e direção de arte (59%).

Nas funções de produção, homens negros assumem apenas 2,1% e mulheres negras não assinam nenhuma produção. Apenas 1% de mulheres brancas e negras respondem à função em equipes mistas. 

Mecanismos 

O plano de políticas afirmativas da Spcine contempla linhas de fomento para produção de curtas e longas-metragens, distribuição de longas-metragens, desenvolvimento de roteiro para série, criação de games, finalização de filmes e apoio a mostras e festivais (Veja  abaixo o tipo de mecanismo por edital). 

Cada linha conta um mecanismo de estímulo específico. Entre eles, estão pontuação extra para equipes lideradas por mulheres, empresas encabeçadas por profissionais negros e eventos com perfil periférico/LGBTQ+. 

Para a inclusão no setor de games, a empresa prepara um edital que vai complementar os recursos conquistados via financiamento coletivo pelo proponente. Batizado de Edital de Match Funding, a linha prevê investimento adicional de 20% no valor arrecadado para projetos de desenvolvedores mulheres e negros.

De maneira inédita, a Spcine adota o Teste De Bechdel com critério de pontuação no Edital de Distribuição de Longas-Metragens. Criado para avaliar se um filme faz bom uso de personagens femininas, o teste se baseia em três regras: a obra deve ter duas personagens mulheres com nome; pelo menos uma cena em que elas conversam entre si; e o diálogo não pode ser sobre homem. Filmes aprovados no teste ganham ponto adicional.

A empresa também lança uma nova edição do Edital de Curtas. Primeira ação da Spcine a incluir política de cotas afirmativas, em 2016, a linha contemplou 33 projetos de curtas-metragens, dos quais 22 dirigidos por mulheres, 19 de realizadores negros ou negras, dois de pessoas transgênero, um indígena e dois de pessoas com deficiência/mobilidade reduzida. Os filmes selecionados participaram dos principais eventos de cinema do Brasil e do mundo, como a Quinzena dos Realizadores (França) e o Festival de Roterdã (Holanda). 

Ações complementares

O plano contempla também a realização de ações e programas de formação com impacto direto na inserção de mulheres e pessoas negras no setor. A primeira ação, já em curso, concede bolsa a uma profissional de audiovisual negra para participar do LATC Global Film & TV Program,  imersão de quatro dias sobre mercado global de audiovisual em Los Angeles (EUA). 

Além disso, o plano prevê: 

  • Ações de empreendedorismo para pequenas empresas e coletivos audiovisuais com foco no desenvolvimento de empreendimentos negros;
  • Ações de formação para a inclusão de desenvolvedores mulheres e pessoas negras no setor de games;
  • Bolsas para programas internacionais para qualificação de profissionais negros e mulheres;
  • Participação de profissionais mulheres e pessoas negros nas mostras, festivais e mercados patrocinados pela Spcine.
  • Inserção nos projetos e eventos patrocinados pela Spcine de  jovens oriundos dos programas de formação audiovisual com recorte sócio-econômico ou com bolsa em instituições de ensino.

Redes sociais 

Para divulgar o plano de políticas afirmativas, a Spcine promove também a partir desta quarta (25/9) a campanha #MeRepresenta nas redes sociais da empresa. Artistas e influenciadores como a atriz e cineasta Vaneza Oliveira (3%), o diretor Daniel Ribeiro (Hoje Eu Quero Voltar Sozinho) e a humorista e influenciadora digital Maíra Azevedo (conhecida como Tia Má) aparecem em vídeo defendendo a diversidade no audiovisual brasileiro. 

A campanha também convoca o público a indicar suas obras nacionais favoritas  – filmes, séries, programas de TV, canais no YouTube – de criadores(as) mulheres, negros(as), indígenas e LGBTQ+, usando a hashtag #MeRepresenta. As indicações serão compartilhadas pelos perfil oficial da Spcine no Instagram com o intuito de promover os títulos desses criadores. 

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PLANO DE POLÍTICAS AFIRMATIVAS 

(Aplicação por linha de fomento)

  • Edital de Produção de Longa-Metragem (Baixo Orçamento)

O que é? 

  • Fomento para filmes de até R$ 2,1 milhão (ficção) e R$ 900 mil (documentário).  
  • Edital de Produção de Longa-Metragem (Start Money)

O que é? 

  • Primeiro investimento para a realização de longa-metragem. 

Metas:

  • 50% dos contemplados mulheres
  • 30% dos contemplados negros(as)

Estímulo: 

  • Pontuação extra (cumulativa) para equipe responsável pela obra inscrita no edital que tenham mulheres nos cargos de direção, direção de fotografia e coordenação de pós-produção. 
  • Pontuação extra para empresa com quadro societário composto por pelo menos 01 pessoa negra. 

Ações complementares: 

  • Preferência na contratação de jovens oriundos dos programas de formação audiovisual com recorte sócio-econômico ou com bolsa em instituições de ensino.
  • Edital de Distribuição de Longas-Metragens

O que é? 

  • Fomento para o lançamento de filmes em salas de cinema comercial. 

Metas:  

  • 25% de empresas que tenham como escopo recortes afirmativos específicos: gênero, raça, LGBT ou tenham 1 sócio negro em seu quadro. 

Estímulo: 

  • Pontuação extra para obras aprovadas pelo Teste de Bechdel. O Teste de Bechdel avalia a qualidade da representação de mulheres em obras audiovisuais com base em três requisitos:
  1. A obra deve ter pelo menos duas personagens mulheres com nome
  2. As personagens devem conversam uma com a outra
  3. O diálogo não pode ser sobre homens
  • Edital de Desenvolvimento de conteúdo seriado para canal ou plataforma OTT 

O que é?

  • Fomento ao desenvolvimento criativo (roteiro) de séries. 

Metas: 

  • 50% dos contemplados mulheres
  • 25% dos contemplados negros

Estímulo:

  • Pontuação extra para projetos de roteiristas mulher/pessoas negras
  • Pontuação extra para roteiristas ligados a empresas com pelo menos 01 pessoa negra no quadro societário.
  • Edital de Produção de Curtas-Metragens 

O que é?

  • Fomento à produção de curtas-metragens. 

Objetivos: 

  • Cota para criadores (as) mulheres, negros (as), indígena, homem transexual, mulher transexual/travesti, pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida. 
  • Edital de Match-Funding Games  

O que é?

  • Voltado à produção de games, a linha complementa o valor conquistado via financiamento coletivo pelo proponente. 

Meta: 

  • Estímulo à inclusão de mulheres e pessoas negras no desenvolvimento de games.

Estímulo: 

  • Investimento de 20% adicional para jogos de desenvolvidos por mulheres e pessoas negras.  
  • Edital de Eventos 

O que é? 

  • Patrocínio a eventos ligados ao audiovisual como mostras, festivais e mercados.

Meta: 

  • Estimular eventos com DNA periférico, negro, LGBTQ+ e de mulheres.

Estímulo: 

  • Pontuação extra para eventos com perfil periférico, negro, LGBTQ+ e mulheres. 

Ações complementares: 

  • Prioridade na contratação de participantes dos programas de formação da Spcine para a monitoria. 

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